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A angústia nossa de cada dia

Dia desses alguém me disse que só há duas alternativas para solucionar a ansiedade existencial: a fé em Deus ou o suicídio. Como sou ateia, este ponto de vista me pareceu um tanto desesperador.
De imediato, respondi que os ansiolíticos e outros fármacos do tipo eram uma solução, mas logo ponderei que eles são apenas formas de controle e não de cura. Lembrei então o argumento de Benjamin, das três formas de sublimação – maneiras de se dar significação em meio à ansiedade mundana. São elas: o ópio, a arte e a dimensão erótica (“para não falar da mais terrível das drogas – nós mesmos – que tomamos quando estamos sós”).
Por um momento, cogitei que talvez o suicídio também pudesse ser uma solução. Mas se o que se quer é dar sentido à vida, é preciso – obviamente – estar vivo.
A solução, então, talvez seja a rotina. Porém, ao mesmo tempo em que ela mantém nossa segurança ontológica, ela também nos aprisiona. É a rotina que faz com que as pessoas se preocupem com problemas neuróticos e desnecessários do dia a dia porque isso as distancia de lidar com questões existenciais, mais insolúveis e aterrorizantes. Mas, eventualmente, essas questões vêm à tona e nos deixam à deriva. Desta forma, a rotina não é o bastante. É preciso conciliá-la com as três formas de reencantamento.
A questão que atravessa todas angustias talvez seja: afinal, porque a vida vale a pena ser vivida? Para essa pergunta só há resposta definitiva se você acredita num ser supremo que te traçou um plano. Se este não é o caso, desencantamos o mundo e, portanto, racionalizamo-lo. Como conseqüência, ficamos presos em nossas rijas crostas de ferro. Contudo, vale lembrar que somos nós os donos das chaves que abrem nossas próprias jaulas. O problema é que temos muitas chaves e às vezes demora uma vida inteira para se encontrar aquela(s) que funciona(m).
P.s. Só para esclarecer: nada em mim é original. Eu sou o esforço combinado de todas as pessoas que já conheci.