Persona


“Você acha que eu não sei? O sonho sem esperanças de ser.
Não de parecer, mas de ser. A cada momento desperto, alerta.
O abismo entre quem se é com os outros e quem se é sozinho.
A vertigem e a ânsia constantes de ser exposto,
visto através, talvez mesmo eliminado.
A cada inflexão uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta.
Suicídio? Não, impensável. Você não faria isso.
Mas você pode se recusar a se mover, a falar.
Pelo menos assim, não terás que mentir.
Você pode se fechar em si mesma, se fechar para o mundo.
Assim você não precisa exercer nenhum papel ou fazer gestos incorretos.
Pelo menos isso é o que você pensa. Mas a realidade é diabólica.
Seu esconderijo não é impermeável.
A vida goteja de fora, e você é forçada a reagir.
Ninguém te pergunta se é real ou não, se você é sincera ou falsa.
Tais coisas importam apenas no teatro, ou talvez sequer lá também.
Eu entendo por que você não fala, por que não se move.
Sua apatia se tornou um papel que gostas de interpretar.
Eu entendo e te admiro.Você deveria continuar com este papel
até que ele se esgote,até que perca interesse para você.
Então, você poderá abandoná-lo, como abandonou todos
os papéis que já interpretaste, um a um”


Agora sim, aprendi a gostar de Bergman.


P.s. Obrigada pela companhia flâneur de hoje, Georg. Só fiquei com uma pergunta em mente: qu'est-ce que c'est coquette?


No jogo da academia

Há uma ideia. Eventualmente, até um bosquejo e um sentido. Entretanto, no começo é apenas um mero aglomerado de palavras, frases e citações. Aos poucos vai tomando corpo: somam-se parágrafos, páginas e inúmeras estratégias retóricas. Revisa-se repetidamente. Et voilà: surge um artigo.


P.s. Ground control to Major Tom: copiei o seu título, mas mudei algo pra disfarçar. Isso faz parte do jogo. Além disso, plágio referenciado não é plagio, é citação. De qualquer forma, aqui não é jurisdição da ABNT ou do CNPq...

Das teorias selvagens

“A masturbação mental dos acadêmicos é um dos pilares do mundo intelectual e da cultura como conhecemos...”

Na primeira vez que ouvi falar sobre esta hermana admito que não fiquei muito interessada. Já na segunda vez, uma divertida entrevista concedida a um conterrâneo me motivou a comprar seu livro. Assim, adquiri-o na primeira oportunidade que tive e mergulhei em suas teorias selvagens. Contudo, encalhei na metade. Frustrada, repousei-o na prateleira junto a outras leituras interrompidas cujo destino é incerto...

Depois disso, fiquei ainda mais desmotivada quando ouvi Xico dizer que ela deixou-o na mão na festa de Paraty (pelo menos, ele encontrou Luiza para consolá-lo). Porém, eis que me deparo com uma entrevista televisiva dela e esqueço todas as frustrações. Em primeiro lugar, porque finalmente aprendi a pronunciar seu sobrenome corretamente. Em segundo lugar, porque (mordam a língua jornalistas – certamente barangudas – que disseram o contrário) ela é linda, esbanja charme e carisma. Last, but not least, porque me identifiquei profundamente com seu jeito (pseudo)intelectual sarcástico e zombeteiro.

Ei, Pola! Quer vir aqui em casa confabular, cuidar das minhas orquídeas e me emprestar aquele batom com um tom de vermelho incrível, amiga?


P.s. para monsieur da Rosa: posso ser inserida entre as pessoas que vão herdar o terceiro item de seu testamento? Ou, se preferires, adotamos a comunhão total de bens (só a história de monogamia que não topo não, obviamente...)

Inquietudes femininas


Sim, minha cara, sei que tens conseguido disfarçar tua constante insatisfação. Mas tenho a impressão de que quando deixas a máscara de lado sentes que essa sensação sempre vai te acompanhar. Parece que nunca consegues decidir definitivamente o que queres, eu sei como é.
Não tenho uma resposta, nem garanto que será reconfortante ouvir o que tenho a te dizer. Obviamente, meu conselho não repousa em um lugar comum - o que é raro nestes tempos de Google, Dr. Phil e auto-ajuda.
O que penso é que não precisamos mais ser isto ou aquilo. A incoerência não precisa ser fonte de angústias, nem nos levar ao fim escolhido por Sylvia, Virginia ou Anna (cabeça no forno, fundo do rio e trilho de trem). É claro que seguimos sendo inquietas, mas podemos dar vazão às nossas inquietudes sem nos condenar por isso, entende? Podemos nos divertir com nossas contradições...


P.s. Sempre grata a Sabina.

Do que vi em Brasília


A Brasília dos turistas enfoca na exuberante arquitetura. A ideia de mitos e heróis vinculados à fabricação desta cidade é reproduzida por todos os cantos - em forma de monumentos e narrativas. Mesmo aqueles que de alguma forma a subverteram são por ela incorporados, como, por exemplo, em sua trilha sonora. O museu a céu aberto parece ocultar o que acontece dentro de seus prédios ostensivos, cercados por espelhos da água que julgam sugerir algum tipo de pureza. E mesmo do ponto mais alto de seu plano parece não ser possível enxergar o caos à sua margem...


(Porque nós duas partilhamos estas impressões.)

O lagarto rei



I am troubled immeasurably too, Mr. Mojo Risin.