
Festividades de final de ano

Da classificação
Alteridade
Esbarramo-nos numa destas noites aleatórias. Ele adora dissertar prolixamente sobre a natureza humana quando está embriagado. Curiosamente, desta vez parecia interessado em ouvir o que eu pensava a respeito. Perguntou-me sobre o que nos une, o que nos faz viver em sociedade.
Eu poderia falar-lhe do contrato, da solidariedade, da propriedade, da héxis ou do habitus. Poderia tê-lo ignorado também. Contudo, achei que poderia fazer uso da oportunidade para lhe dar uma alfinetada – uma de minhas especialidades. Então, respondi:
- Todos nós somos socialmente incompetentes em alguma medida. Para disfarçar – ou seja, para ao menos parecer competentes –, aprendemos os códigos socialmente instituídos. É preciso domínio das regras para acompanhar o jogo. Afinal, alienar-se nem sempre é uma opção: a misantropia muito raramente pode ser assumida, querido.
Chamou-me de apática ou resignada, não me lembro bem. No entanto, partilhamos uma coca-cola gelada. Nestes momentos, até os mais cínicos atestam que fomos feitos um para o outro: não há outra possibilidade.
Vazio
Mais uma dose
- Por que te preocupas tanto? Relaxe e beba uma dose de whisky.
Disse isso sussurando no meu ouvido. Na verdade, talvez não tenha dito nada, mas foi isso que escutei. Afinal, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só pedi que deixasse alguma luz acesa. A escuridão absoluta me tem feito chorar – e eu não consigo lamber minhas próprias lágrimas.
Olhou-me carinhosamente (ou talvez com desprezo, pouco importa) e me serviu mais uma dose.