Leonard Cohen lá em casa

Feliz aniversário, Leo.
Vem cantar no meu ouvido, vem...

Panteísmo estético

Final de tarde. Quando acaba o expediente. Happy hour chamam alguns. Mas, para ela, de feliz aquela hora não tinha nada. Sempre que ajeitava suas coisas para se preparar pra sair lhe batia uma melancolia. Especialmente ultimamente e particularmente às sextas feiras. Era tomada por uma sensação de solidão. Existir lhe doía. Queria se retirar do mundo, mas ao mesmo tempo não queria se sentir assim, tão só. Assim, naquele dia resolveu ir para algum lugar repleto de pessoas. Ela não queria interagir com elas, mas simplesmente estar lá. Provavelmente na companhia de um café e um livro. Mesmo que assim fosse se sentir invisível. Não completamente invisível, mas camuflada. Imersa. Dispersa. Como uma bolha flutuando pelo meio do salão. Esperando surgir alguém que lhe espetasse e fizesse desintegrar.

Escreveu essas palavras em seu bloco de anotações enquanto tomava o café, em um intervalo da leitura de um romance de um escritor japonês contemporâneo. Olhava pela janela como se esperasse alguém, mas sabia que não ia chegar ninguém. Assim, mergulhou novamente na leitura.

Se tivesse escrevendo um conto, seria neste momento em que ocorreria o evento definidor da trama. Se fosse um filme, os espectadores estariam vendo aquela cena começando a acontecer antes dela. Pareceria até um clichê. Mas, na verdade, era uma grande coincidência. Acaso ou qualquer uma dessas coisas. Ela não se deu conta do momento exato em que ele entrou no recinto. Não saberia dizer se ele ficou examinando o local antes de escolher aonde iria se sentar. Nem se foi propositalmente que escolheu sentar ali, na mesa tão próxima, ao lado da dela. Foi só quando ele já estava sentado lá que ela percebeu sua presença. Ele também possuía um visual fora do comum que destoava daquele lugar. E ele também carregava um livro, cujo título ela viu apenas de relance. Era algo de Freud ou sobre Freud, não poderia dizer com certeza. Só conseguiu reparar que o título, assim como o que ela estava lendo, era em inglês. Também só o viu de soslaio, mas parecia se tratar de um belo rapaz. Cabelos dourados, ombros largos e olhos claros. Deveria ter um pouco mais de vinte e cinco anos. Trajava um pullover laranja com gola em v, calça em tom militar e tênis sem meias. Possuía um jeito ao mesmo tempo austero e relaxado de sentar. Tinha aquele ar de quem foi criado com conforto financeiro e bem estar emocional. Passava uma imagem de alguém culto e bem educado. Foi gentil e cortês com os funcionários do local. Ao que tudo indicava era um cliente habitual. Achava até que o chamaram pelo nome. Como estava com o fone de ouvido, ela não escutou bem. Até tirou-os depois, pois queria ouvir sua voz. Escutou-a quando ele atendeu seu celular. Não era exatamente como ela esperava. Achava que seria mais grave. Mas era doce. Somente quando ela levantou-se para ir ao toilette que pôde ver seu rosto de frente e trocaram um breve olhar. Não sentiu nada, mas notou que se tratava de alguém que já havia visto. Seria deus que desceu do Olimpo para se juntar ao reles mortais? O que estaria fazendo aqui? Pensou em pedir licença e abordá-lo, mas imaginou que isso sim seria um lugar comum e pareceria uma cantada genérica. Se ao menos ele tivesse demonstrado algum sinal de tê-la reconhecido. Se bem que eles não se conheciam de verdade. De qualquer forma, se ele fosse quem ela estava achando, ela sabia quem ele era e tinham conhecidos em comum. Poderia ter iniciado a conversa por aí. Mas imaginou que ele parecia ser aquele tipo de homem demasiado bonito e inteligente, que se julga bom demais para conversar com alguém tão mediana quanto ela. Acharia que ela teria segundas intenções ou poderia pensar que ela era um tanto invasiva. Afinal, ela não é muito habilidosa para puxar assunto e desenvolver conversas corriqueiras. Mas o que ela queria era apenas alguém interessante para conversar. E ele parecia sê-lo. Por um momento também imaginou uma narrativa diferente, com um desenrolar erótico da situação: abordaria-o falando alguma sacanagem em seu ouvido e seguiriam para o banheiro do local sem trocar qualquer palavra; se beijariam apressadamente enquanto ele a levantaria de modo que ficasse sentada na pia, abaixaria sua meia calça e levantaria sua saia enquanto abriria a braguilha de sua calça; fariam loucamente, aquilo que há um bom tempo ela não fazia e em um local que jamais tinha feito; depois sairiam, ela ajeitando sua roupa e ele passando as mãos nos cabelos, e cada um seguiria seu próprio rumo. Contudo, ela não fez nada. Continuou lendo seu livro. Quando se deu conta, ele já havia pago sua conta e ido embora. Imaginou que nunca mais se encontrariam.

Assim, pegou novamente seu bloco e anotou "o bom da escrita é que posso inventar o desfecho que quiser." Percebeu então algo muito óbvio, mas que nunca tinha se dado conta antes: o autor é o deus de seus personagens. Sentiu-se tão deidade quanto ele. Assim, deu o último gole em seu expresso, juntou suas coisas e foi embora satisfeita.

O mundo da vida é aqui

Acordei de um sono pesado e tomei consciência de alguma coisa: era eu.

Depois de algumas horas percebi - cognoscitivamente - que isso não era o suficiente, dependia de nós coletiva e intersubjetivamente.

Perplexo, pedi que me concedessem um pouco de atenção (natural) e atribuíssem significado a essa experiência. Não foi possível: compartilhávamos os mesmos símbolos, mas não falávamos o mesmo idioma.

Desesperei-me e busquei em meu estoque de conhecimento alguma solução. Porém, estava vazio. Como não havia alternativa, procurei então o sentido último da vida.

“Foi declarado morto há quase dois séculos, você ainda não sabia?”

Preferi não cortar os pulsos.

Velho safado



Obrigada pela recomendação, Ernest.

P.s. fica a dica, Jóris!