Condição do animal humano

Sim, estamos condenados a ser livres. Sei que condenação parece uma palavra pesada, demasiadamente pesada (não gostou? Queixe-se com JP). Mas é simples, querido: estamos compelidos a fazer escolhas. Por que te angustias tanto? Não escolher já é fazer uma escolha. E te confidencio: ninguém é totalmente lúcido. Alguns só encenam melhor – crêem no papel que estão representando e o tornam significativo para os outros. Não, isso não é falsidade. É habilidade. Acentuam-se uns fatos e ocultam-se outros. É preciso ao menos tentar manter a coerência expressiva, entende?
(Há realmente muitas precauções para aprisionar uma pessoa naquilo que ela é, como se vivêssemos com o perpétuo receio de que possa escapar do que é, possa fugir e de repente ver-se livre da própria condição.)

A sutileza do ódio

À bela e tirana Austera:

Toda forma de ódio é mais sutil do que se imagina.
Talvez a autoria dos erros mais estúpidos nos revela: se eu pudesse parar de escrever, eu o faria... (Se eu pudesse ser menos tolo, também o seria.)
Grata e fértil possibilidade de se exaurir de culpa quando se falseia como louco.
Grata e fértil possibilidade de se exaurir de angústia quando se falseiam palavras na folha de papel.
A madrugada não me revelou coisa alguma, o jazz não me encantou em nada e o vinho sequer brilhou meus olhos.
Malditas lembranças que gostam de se encontrar com seus palpites. Elas os esgarçam até dizerem algo. Até dizerem que nada dizem. Ou dizerem que nada querem, mas apenas dizem - que, como eu, são sem sentido.
Não vejo mais seus filmes. E quando os meus me lembrarem os seus... mal dia para a ciência ou qualquer outra dessas crenças.
Mal dia em que a maldita lembrança notou um ódio sutil de alguma coisa.

Eu poderia falar tudo isso em um acorde, diferente daqueles que um dia fiz pra você.
Mas para não te despertar, apenas fecho meus olhos para parar de escrever.


Jóris.

Caio, meu amor

Certa vez me disseram que a semana não começa na terça.
Alguém também já me disse (sussurando no pé do ouvido) que terça é a primeira sexta da semana.
Seja como for, a questão é que hoje Jane está sem vontade de escrever. Ela não tem prazos a cumprir, nem deve nada a ninguém. Por isso, ela escreve somente quando a vontade é incontrolável.
Jane também não precisa se justificar pra você, mas ela faz questão de dizer que gosta muito de Caio - ele sempre a faz companhia nas noites mais solitárias.
Ela também quer dizer que detesta pessoas que se referem a elas mesmas na terceira pessoa (só estou fazendo isso pra te irritar). Mas em outra oportunidade falaremos sobre isso. Hoje não. Esta terça é de Caio, meu amor:

— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.
Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.

(Caio Fernando Abreu; trecho de "Triângulo das Águas", 1984)

Sobre clichês

De finais de filmes a campanhas eleitorais. De opiniões sobre temas banais a declarações amorosas. Eles estão lá, estão por toda parte.
A pergunta que não quer calar: por que é tão difícil escapar de lugares-comuns?
Os chavões se alastram pelos quatro cantos do mundo e ninguém parece se importar muito com isso. Consterna-me profundamente o fato das pessoas parecerem não se irritar com eles – e, pior, até gostam deles.
Sei que em algumas situações eles parecem ter importância vital e você acha que eles expressam exatamente o que você queria dizer. Pode até ser que de quando em quando não possamos escapar do uso de clichês. Mas não seja uma vítima fatal deles, você pode evitá-los, eu sei que pode.
Basta usar essa coisa que fica em cima do seu pescoço e que não serve simplesmente para colocar chapéus. Pense um pouquinho, você consegue. A língua é uma fonte inesgotável de expressões idiomáticas.
Há uma luz no fim do túnel e ela me diz que deve haver algum vestígio de criatividade e originalidade em você – aliás, em todos nós.


P.S.: quem acertar quantos clichês usei neste post vai ganhar um caloroso abraço.