O nascimento do leitor

Um texto pode ser uma peça discursiva que tem o intuito de comunicar algo ao outro. Contudo, um texto também pode ser um mero amontoado de palavras aparentemente sem sentido. Quem dá significado ao texto é tanto quem o escreve, quanto quem o lê? Afinal, o autor não está morto, mas tampouco o está o leitor. (Roland Barthes, esse sim já está morto.)

Assim como Enrique, ela queria escrever como Miles Davis, que em todas as suas apresentações tocava o trompete de costas para o público. O que eles não percebiam – ou fingiam não perceber – é que, na verdade, era o mundo que dava as costas para eles. Ingênuos.

Mediocridade

Achava-se talhado para grandes feitos. Assim como a maior parte das pessoas, era medíocre e sempre seria. Jamais realizaria algo extraordinário, mas insistia em pensar o contrário. Julgava ser boa pessoa, contudo, permitia-se pequenos deslizes morais que não considerava falhas de caráter. Não se destacava em nada. Nunca chegou em primeiro lugar, sequer tinha habilidade alguma. Não era completamente burro, mas sua inteligência era tão mediana e comum que me provocava ânsias. Patético, pensava que suas frases e conselhos repletos de lugares comuns eram brilhantes. Era ridículo, eu o desprezava profundamente. E ele sentia por mim estas mesmas coisas que eu sentia por ele. (Nos amávamos loucamente).