um apud

titio Erving usou como epígrafe - e eu gosto.

As máscaras são expressões controladas e ecos
admiráveis do sentimento, ao mesmo tempo fiéis,
discretas e supremas. As coisas vivas em
contato com o ar devem adquirir uma cutícula,
e não se pode argumentar que as cutículas não
são corações; contudo alguns filósofos parecem
aborrecidos com as imagens por não serem
objetos e com as palavras por não serem
sentimentos. Palavras e imagens são como as
conchas, não menos partes integrantes da
natureza do que as substâncias que cobrem,
porém melhor dirigidas ao olhar e mais abertas
à observação. Não diria que a substância existe
por causa da aparência, ou o rosto por causa
da máscara, ou as paixões por causa da
poesia e da virtude. Coisa alguma surge na
natureza devido a qualquer outra coisa; todas
essas faces e produtos estão igualmente
envolvidas no ciclo da existência ...

(George Santayana; "Soliloquies in England and Later Soliloquies", 1922)


Como diria Dr. Gregório: everybody lies.

Sshhh!

Já notou que tem gente que parece falar com o caps lock ligado? Digam o que disserem – mas em voz baixa, por favor –, eu nunca deixei de acreditar que falar alto esconde algum problema. De surdez à falsa auto-afirmação. Não raro, quem fala alto, pouco faz ou está errado. Geralmente, não ouve. E há quem repita, como se reenviar fizesse com que eu não deletasse de novo a inútil mensagem.
Mas - como o mundo é injusto - em um grupo de mudos, quem fala alto vira líder. Peguemos uma reunião, por exemplo. Quem tem uma excelente ideia e fica quieto, não resolve. Assim, quem se manifesta, independentemente do conteúdo da proposta, pode vê-la aceita. Frequentemente, não pela ideia em si, mas por ter sido o único que falou.
Isso me lembra outro fraco dessa relação: os que mal abrem a boca. E, quando o fazem, têm sua voz esganiçada ou artificializada. Ou, ainda pior, ignorada – já que ninguém está acostumado a ouvi-la... É como se o ouvido fosse um windows pirata que não reconhece a configuração daquela fala.
Se existe uma regulação do equilíbrio entre falar e ouvir, não sei. É questão de bom senso. Comece adequando-se à velha ABNT (olha o caps lock aí!!): arial ou times new roman, tamanho 12.

Para a estreia, brioches

Começo dizendo que detesto o novo acordo ortográfico. Não porque escrever estreia sem acento me pareça dramático, mas simplesmente porque certas coisas deveriam ser deixadas como são - no caso, como eram. Além disso, penso que os linguístas deveriam achar coisas mais interessantes das quais se ocupar.
Dito isso, tratemos agora dos brioches. Afinal, o que são brioches? Se você começou a ler isso pensando que eu responderia à essa sua inquietação existencial, esqueça. Pare de ler aqui mesmo (se é que você já aguentou ler até aqui).
Pouco me importa o que são os tais brioches.
Obviamente devem ser um tipo de pão - parece que eles estão à venda em padarias. Mas, exceto em receitas (e não me refiro somente àquelas que chefs ingleses com cortes de cabelo descolados inventam), ninguém quer ler algo que contenha as palavras farinha, sal e ingredientes em geral.
Não que eu me interesse sobre o que vocês querem ler, mas o que quero lhes falar é outra coisa: sobre o que me incomoda em relação aos brioches.
Em primeiro lugar, a maioria das pessoas (leia-se: todas as que conheço) nunca comeu um brioche. Contudo, adoram fazer referência ao que Maria Antonieta disse. Ou melhor, ao que dizem que ela disse - não confio muito nos historiadores.
Outra coisa que me perturba é o fato dos brioches serem franceses. Das baguetes e dos croissants eu gosto. Mas esses eu já vi, já comi, já digeri. E eles não soam tão aristocráticos quanto os brioches.
Mas não é só isso que os fazem ser irritantes, e sim a forma como algumas pessoas pronunciam a palavra brioche. Isso sim me irrita - até mais que os próprios brioches. Eis aí uma questão da qual os linguístas deveriam se ocupar.