O bicho freudiano

Certo dia, quando estávamos reunidas com alguns amigos, seu papagaio começou a repetir melodiosamente a palavra recalque. Todos imaginaram que tivesse sido ela mesma quem havia treinado o bicho a dizer isso, afinal, ela era estudante de psicologia e adepta da psicanálise – mas apesar disso, nossa convivência era divertida. As coisas começaram a mudar quando ela veio me indagar por que eu havia ensinado a ele tal vocabulário. Neguei piamente. Então, se não havia sido nenhuma das duas, quem teria sido? Provavelmente algum amigo querendo se divertir com a situação. Ainda assim, ela continuou bastante intrigada com o feito do bicho. Ela tinha grande carinho por ele, pois tinha salvado-o pessoalmente das garras dos comportamentalistas – leia-se: furtado de um dos laboratórios do departamento em que estudava. O bicho passava a maior parte do dia solto pela casa, não voava muito bem, mas conseguia ir até o topo dos móveis – de onde passou a nos surpreender gritando expressões como complexo de Édipo. Eis que um dia ela escutou um barulho estranho vindo de seu quarto. Foi quando descobriu, no topo de sua estante, de onde o papagaio tirava seu inusitado vocabulário: ele estava terminando de devorar o penúltimo volume de sua coleção das obras completas de Freud. Só restaram as capas duras, de couro vermelho. Fortemente convencida de que os animais também possuíam algo além da senciência – uma consciência ou até um inconsciente –, ela resolveu abandonar o curso de psicologia. Escolha apropriada, pois já há suficiente número de psicólogos que não sabem algo essencial sobre seu objeto de estudo e trabalho: as pessoas mentem. (Quando ela se mudou eu estava quase conseguindo fazer o papagaio dizer fixação na fase oral).

Conversa de boteco

Noite dessas enquanto proseávamos na companhia de outro Jack - sem gelo, obviamente - Sr. Kerouac me disse o seguinte:

The only people for me are the mad ones,
the ones who are mad to live,
mad to talk,
mad to be saved,
desirous of everything at the same time,
the ones who never yawn or say a commonplace thing,
but burn,
burn,
burn ...


Concordei desesperadamente.
(Passamos o restante da noite em silêncio.
Nada mais precisava ser dito.)

Porque não uso meia-calça

O ato de vestir uma meia-calça pode ser algo muito sexy (sim, refiro-me àquela peça do vestuário que é uma meia comprida e inteira, que vai dos pés à cintura). Pense numa bela mulher, semi-nua, sentada à beira de sua cama, vestindo aquele tecido enrolado que vai cobrindo pouco à pouco suas pernas bem torneadas. Já o ato de tirá-la pode vir a ser muitíssimo desestimulante. Imagine aquela situação em que o desejo está transbordando e aquele pedaço de lycra, nylon ou lã está ali, no meio do caminho. Atrapalhando, embolando-se e postergando o ato de deixá-la vestindo nada além do que um mero par de brincos – não que nessas situações seja sempre necessário estar completamente despido .... Ainda assim, compartilho: prefiro não usar meia-calça.

Olhares reveladores

Saber interpretar um olhar é uma arte. Muitas pessoas julgam saber, mas, na verdade, frequentemente se enganam. É claro que sempre pode haver aquela coisa, à la Quintana: quem exprime o olhar pensa uma coisa, expressa outra coisa e seu interlocutor entende uma terceira coisa; e a coisa propriamente dita passa a desconfiar que não foi propriamente dita. Contudo, muito raramente, é possível se aproximar de uma leitura fiel do que um olhar quer realmente dizer. Só que isso não depende somente de quem o lê, mas também de quem exprime o olhar e, principalmente, de algo que escapa ao controle dos dois. Talvez, uma empatia sutil, um tipo de conexão recíproca - inefável - que poucas pessoas têm o prazer de experienciar. Nessa situação incomum, os silêncios não são constrangedores, nem implicam em ansiedade alguma. A necessidade de se expressar oralmente o que se quer dizer passa a ser descartável. Eles são capazes de se entender verdadeiramente por meio de olhares, entende? Entretanto, como em toda arte, resta sempre a dúvida: até que ponto essa sensação é real ou apenas uma representação? (O que, de maneira alguma, a torna menos interessante).

Relato de um sonho absurdo

Ontem sonhei com Albert Camus. Era noite e estávamos em uma cafeteria, onde conversávamos enquanto bebíamos café. Lembro que, em meio a tantas coisas que poderiam ter me intrigado nesta situação, chamou-me bastante atenção a forma como estávamos vestidos. Ele trajava um fraque: sobrecasaca de cor preta, camisa branca, colete cinza-escuro, calça da mesma cor com riscas verticais mais escuras, sapatos pretos. Ele não estava usando gravata, contudo seu chapéu encontrava-se pendurado no cabideiro ao lado da porta – acredito que era dele já que não havia ninguém além de nós dois no local. Sentada à sua frente, eu usava somente um vestido de veludo azul petróleo de caimento perfeito. Estava descalça e sem maquiagem alguma, mas mesmo assim apresentava surpreendente elegância.
A maneira como levávamos as pequenas xícaras de porcelana branca à boca também indicava certo refinamento, assim como a delicadeza que empenhávamos ao fumar os eventuais cigarros – que eram acesos cada vez com mais frequência, conforme se desenrolava a conversa. Apesar dessas aparentes formalidades parecíamos estar muito à vontade um com o outro. O tom da conversa sugeria isso. Fofocamos a respeito de Sífifo, Marie, Janine e daquele homem revoltado. Zombamos de Sartre. Também falamos sobre futebol e sobre escolher viajar de trem ou de carro.
Em certo momento, a porta da cafeteria em que estávamos foi abruptamente aberta. Era David Lynch. Ele não se desculpou pela interrupção, simplesmente veio em direção à nossa mesa, voltou-se para Camus e disse: Eu não acho que as pessoas aceitam o fato de que a vida não faz sentido algum. Só pensar isso as deixa terrivelmente incomodadas. Camus respondeu que sim – apesar de Lynch não ter lhe perguntado nada – e me olhou sorrindo, como se esperasse que eu concordasse com ele. Fingi entender o que ele estava querendo dizer e ambos pareceram satisfeitos com isso. Eu também fiquei satisfeita.

Sobre o clima e outras banalidades

Não há nada mais banalizado do que falar do tempo – refiro-me ao meteorológico, obviamente. Especialmente entre pessoas desconhecidas e em locais que envolvem algum tipo de espera; como filas de banco ou pontos de ônibus. Particularmente, se alguém começa um assunto comigo pela primeira vez com este tema eis o ensejo necessário para que eu perca o interesse imediatamente. A pessoa pode até se esforçar logo na sequência e eventualmente vir a ter algo interessante a dizer – improvável, eu sei, mas isso pode acontecer. Só que pra mim não adianta mais. Neste ponto meu desinteresse já está mobilizado. Talvez eu devesse dar um desconto. Afinal, puxar conversa com um estranho não é tarefa fácil. A maior parte das pessoas não tem habilidade para fazê-lo. Pensemos no caso dos que são socialmente incompetentes, por exemplo. Como eles não compartilham certos códigos sociais não se sentem constrangidos em situações nas quais a maioria das pessoas se sentiria e, por isso, ao puxarem conversa podem acabar criando situações desconfortáveis ou incomodas. Você sabe do que estou falando, certamente conhece alguém assim, são aquelas pessoas que fazem os chamados comentários de mau gosto. Seja por ausência de tato ou de bom senso mesmo, a questão é que frequentemente são intervenções importunas. Tão irritantes que frente a elas falar do desinteressante assunto do clima não parece tão ruim assim.