Performance

Também acho que Stanislávski tinha razão:
aquilo que é bem inventado é uma boa história, e não uma mentira.

A angústia nossa de cada dia


Dia desses alguém me disse que só há duas alternativas para solucionar a ansiedade existencial: a fé em Deus ou o suicídio. Como sou ateia, este ponto de vista me pareceu um tanto desesperador.

De imediato, respondi que os ansiolíticos e outros fármacos do tipo eram uma solução, mas logo ponderei que eles são apenas formas de controle e não de cura. Lembrei então o argumento de Benjamin, das três formas de sublimação – maneiras de se dar significação em meio à ansiedade mundana. São elas: o ópio, a arte e a dimensão erótica (“para não falar da mais terrível das drogas – nós mesmos – que tomamos quando estamos sós”).

Por um momento, cogitei que talvez o suicídio também pudesse ser uma solução. Mas se o que se quer é dar sentido à vida, é preciso – obviamente – estar vivo.

A solução, então, talvez seja a rotina. Porém, ao mesmo tempo em que ela mantém nossa segurança ontológica, ela também nos aprisiona. É a rotina que faz com que as pessoas se preocupem com problemas neuróticos e desnecessários do dia a dia porque isso as distancia de lidar com questões existenciais, mais insolúveis e aterrorizantes. Mas, eventualmente, essas questões vêm à tona e nos deixam à deriva. Desta forma, a rotina não é o bastante. É preciso conciliá-la com as três formas de reencantamento.

A questão que atravessa todas angustias talvez seja: afinal, porque a vida vale a pena ser vivida? Para essa pergunta só há resposta definitiva se você acredita num ser supremo que te traçou um plano. Se este não é o caso, desencantamos o mundo e, portanto, racionalizamo-lo. Como conseqüência, ficamos presos em nossas rijas crostas de ferro. Contudo, vale lembrar que somos nós os donos das chaves que abrem nossas próprias jaulas. O problema é que temos muitas chaves e às vezes demora uma vida inteira para se encontrar aquela(s) que funciona(m).


P.s. Só para esclarecer: nada em mim é original. Eu sou o esforço combinado de todas as pessoas que já conheci.

Megalomania

I'm nobody! Who are you?
Are you nodody, too?
Then there's a pair of us - don't tell!
They'd banish us, you know.

How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!

(Ms. Emily Dickinson)

My name is Jane


"Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off,
but it's better if you do."

À deriva


Ela também sofre com as coisas da vida há algum tempo - talvez sempre tenha sofrido, mas só se deu conta disso há algum tempo. Pode chamar de crise de sentido, identidade, perspectivas ou weltanschauung. O fato é que, na maior parte do tempo, ela se sente à deriva em meio à liquidez do mundo contemporâneo. Ela não é uma outsider, tampouco uma flâneur (gostaria de ser, mas não é. Mesmo que às vezes finja ser). Na verdade, ela tem todas condições para jogar o jogo deles. Afinal, ela sabe nadar, mas se recusa a fazê-lo. Por isso, acha que não deveria reclamar. Também porque pensa soar infantil sentir-se assim. Contudo, fazer escolhas de vida a angustia diariamente. E o mais difícil, e cansativo, é tentar manter a coerência expressiva. Às vezes ela falha, os disfarces caem, e todos parecem perceber o quão confusa e insatisfeita ela está. Enquanto isso, os cães de guarda continuam gritando silenciosamente: escolha a vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma televisão de alta definição...

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Patti maionese


Jesus died for somebody's sins but not mine
Meltin' in a pot of thieves
Wild card up my sleeve
Thick heart of stone
My sins my own
They belong to me, me

A caneta pode ser uma espada poderosa

Não há palavra melhor do que a palavra certa. É preciso escolher com cuidado aquela que indique exatamente o que se quer expressar. Contudo, às vezes, muito mais se diz sem se dizer nada. Afinal, há coisas que são inefáveis.

Como bem alertam certos filósofos da linguagem: palavras também são atos. Neste sentido, o significado das palavras só pode ser entendido pelo uso que se faz delas o que envolve tanto o conteúdo semântico, quanto a performance, mas também os efeitos que determinado enunciado produz no seu interlocutor. Contudo, a ausência de palavras também é um ato.

Os contextualistas linguísticos diriam ainda que a questão principal a ser feita diante de um ato de fala é: qual a intenção de determinado indivíduo ao proferir tais palavras em tais contextos? No caso da ausência de palavras, a intenção estaria em não proferir.

Ao mesmo tempo, o significado das palavras – e da ausência delas – não deve ser superestimado: às vezes, são apenas o que aparentam ser e não há nenhum significado além.

We'll always have Paris


"D'ailleurs, c'est toujours les autres qui meurent."

25 de Fevereiro


Hoje não lembro de Tennessee Williams, nem de Mário de Andrade, mas sim de Caio Fernando Abreu. Este 25 de Fevereiro também me lembrará Jean Mafra. Uma feliz coincidência, já que, para mim, ele sempre teve algo de Caio F.
(mas isto é assunto para outra ocasião, afinal, ainda estou de férias...).