O bicho freudiano
Certo dia, quando estávamos reunidas com alguns amigos, seu papagaio começou a repetir melodiosamente a palavra recalque. Todos imaginaram que tivesse sido ela mesma quem havia treinado o bicho a dizer isso, afinal, ela era estudante de psicologia e adepta da psicanálise – mas apesar disso, nossa convivência era divertida. As coisas começaram a mudar quando ela veio me indagar por que eu havia ensinado a ele tal vocabulário. Neguei piamente. Então, se não havia sido nenhuma das duas, quem teria sido? Provavelmente algum amigo querendo se divertir com a situação. Ainda assim, ela continuou bastante intrigada com o feito do bicho. Ela tinha grande carinho por ele, pois tinha salvado-o pessoalmente das garras dos comportamentalistas – leia-se: furtado de um dos laboratórios do departamento em que estudava. O bicho passava a maior parte do dia solto pela casa, não voava muito bem, mas conseguia ir até o topo dos móveis – de onde passou a nos surpreender gritando expressões como complexo de Édipo. Eis que um dia ela escutou um barulho estranho vindo de seu quarto. Foi quando descobriu, no topo de sua estante, de onde o papagaio tirava seu inusitado vocabulário: ele estava terminando de devorar o penúltimo volume de sua coleção das obras completas de Freud. Só restaram as capas duras, de couro vermelho. Fortemente convencida de que os animais também possuíam algo além da senciência – uma consciência ou até um inconsciente –, ela resolveu abandonar o curso de psicologia. Escolha apropriada, pois já há suficiente número de psicólogos que não sabem algo essencial sobre seu objeto de estudo e trabalho: as pessoas mentem. (Quando ela se mudou eu estava quase conseguindo fazer o papagaio dizer fixação na fase oral).
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