Persona


“Você acha que eu não sei? O sonho sem esperanças de ser.
Não de parecer, mas de ser. A cada momento desperto, alerta.
O abismo entre quem se é com os outros e quem se é sozinho.
A vertigem e a ânsia constantes de ser exposto,
visto através, talvez mesmo eliminado.
A cada inflexão uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta.
Suicídio? Não, impensável. Você não faria isso.
Mas você pode se recusar a se mover, a falar.
Pelo menos assim, não terás que mentir.
Você pode se fechar em si mesma, se fechar para o mundo.
Assim você não precisa exercer nenhum papel ou fazer gestos incorretos.
Pelo menos isso é o que você pensa. Mas a realidade é diabólica.
Seu esconderijo não é impermeável.
A vida goteja de fora, e você é forçada a reagir.
Ninguém te pergunta se é real ou não, se você é sincera ou falsa.
Tais coisas importam apenas no teatro, ou talvez sequer lá também.
Eu entendo por que você não fala, por que não se move.
Sua apatia se tornou um papel que gostas de interpretar.
Eu entendo e te admiro.Você deveria continuar com este papel
até que ele se esgote,até que perca interesse para você.
Então, você poderá abandoná-lo, como abandonou todos
os papéis que já interpretaste, um a um”


Agora sim, aprendi a gostar de Bergman.


P.s. Obrigada pela companhia flâneur de hoje, Georg. Só fiquei com uma pergunta em mente: qu'est-ce que c'est coquette?


2 comentários:

  1. Mentir ou morrer, diz Cèline. No other way.

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  2. Os antepassados dos Caduveu consideravam os missionários pessoas estúpidas porque não pintavam o rosto: não possuiam uma máscara social adequada.

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