Inquietudes femininas


Sim, minha cara, sei que tens conseguido disfarçar tua constante insatisfação. Mas tenho a impressão de que quando deixas a máscara de lado sentes que essa sensação sempre vai te acompanhar. Parece que nunca consegues decidir definitivamente o que queres, eu sei como é.
Não tenho uma resposta, nem garanto que será reconfortante ouvir o que tenho a te dizer. Obviamente, meu conselho não repousa em um lugar comum - o que é raro nestes tempos de Google, Dr. Phil e auto-ajuda.
O que penso é que não precisamos mais ser isto ou aquilo. A incoerência não precisa ser fonte de angústias, nem nos levar ao fim escolhido por Sylvia, Virginia ou Anna (cabeça no forno, fundo do rio e trilho de trem). É claro que seguimos sendo inquietas, mas podemos dar vazão às nossas inquietudes sem nos condenar por isso, entende? Podemos nos divertir com nossas contradições...


P.s. Sempre grata a Sabina.

Do que vi em Brasília


A Brasília dos turistas enfoca na exuberante arquitetura. A ideia de mitos e heróis vinculados à fabricação desta cidade é reproduzida por todos os cantos - em forma de monumentos e narrativas. Mesmo aqueles que de alguma forma a subverteram são por ela incorporados, como, por exemplo, em sua trilha sonora. O museu a céu aberto parece ocultar o que acontece dentro de seus prédios ostensivos, cercados por espelhos da água que julgam sugerir algum tipo de pureza. E mesmo do ponto mais alto de seu plano parece não ser possível enxergar o caos à sua margem...


(Porque nós duas partilhamos estas impressões.)

O lagarto rei



I am troubled immeasurably too, Mr. Mojo Risin.

Da noite passada


Hoje foi um daqueles dias em que se acorda sem lembranças da noite anterior, mas com a certeza de que se teve uma boa noite. Como Bourdieu estava ao meu lado na cama, acordei-o e perguntei se ele se lembrava aonde havíamos nos encontrado na noite passada.
Pierre é um pouco prolixo, portanto, não vou reproduzir aqui exatamente o que ele me contou - também porque isso iria requerer escrever frases imensas, que começam a perder o sentido no meio (e abrem parênteses e apostos para fazer referências que muitas vezes não tem muita utilidade, só fazem com que a gente se perca com facilidade).
Enfim, Bourdieu me fez lembrar que ontem foi a festa de aniversário de um amigo que temos em comum, notório por celebrações antológicas: Erving Goffman - o distinto senhor a quem o nome desta página faz referência.
Saudades daquele ano em que ele foi presidente de nossa associação. Obviamente, foi quando tivemos as melhores festas...
Happy birthday, Mr. President!

P.s. Beijos especiais pro Pierre e pro Howie, a quem agradeço por me acompanhar no piano.

P.p.s. Eu não imaginava que Péter Esterházy fosse tão célebre. Beijos mais que especiais pra todos aqueles que gostam de Uma mulher.

The Thin White Duke


David Bowie é bem dotado.
E tenho dito.

Writing ethnographic fieldnotes


Ontem à noite, enquanto partilhávamos algumas garrafas de vinho, Hannah - sempre muito curiosa e atenta - me perguntou o que tanto escrevo em meu moleskine.
"Nada demais" lhe respondi. Afinal, certas anotações de campo devem permanecer apenas ao alcance do pesquisador.

P.s. A frequente comprovação empírica continua motivando Virginia e eu no desenvolvimento da obra "Como viver em sociedade". O código de etiqueta, que começou como uma cartilha, acabou demandando mais páginas do que imaginávamos: precisará ser dividido em 11 volumes. Contudo, estamos confiantes que a coleção estará pronta para publicação até o final deste ano. Interessados devem entrar em contato com a editora o quanto antes, pois a primeira edição já está com a pré venda quase esgotada.

Performance II

Performance

Também acho que Stanislávski tinha razão:
aquilo que é bem inventado é uma boa história, e não uma mentira.

A angústia nossa de cada dia


Dia desses alguém me disse que só há duas alternativas para solucionar a ansiedade existencial: a fé em Deus ou o suicídio. Como sou ateia, este ponto de vista me pareceu um tanto desesperador.

De imediato, respondi que os ansiolíticos e outros fármacos do tipo eram uma solução, mas logo ponderei que eles são apenas formas de controle e não de cura. Lembrei então o argumento de Benjamin, das três formas de sublimação – maneiras de se dar significação em meio à ansiedade mundana. São elas: o ópio, a arte e a dimensão erótica (“para não falar da mais terrível das drogas – nós mesmos – que tomamos quando estamos sós”).

Por um momento, cogitei que talvez o suicídio também pudesse ser uma solução. Mas se o que se quer é dar sentido à vida, é preciso – obviamente – estar vivo.

A solução, então, talvez seja a rotina. Porém, ao mesmo tempo em que ela mantém nossa segurança ontológica, ela também nos aprisiona. É a rotina que faz com que as pessoas se preocupem com problemas neuróticos e desnecessários do dia a dia porque isso as distancia de lidar com questões existenciais, mais insolúveis e aterrorizantes. Mas, eventualmente, essas questões vêm à tona e nos deixam à deriva. Desta forma, a rotina não é o bastante. É preciso conciliá-la com as três formas de reencantamento.

A questão que atravessa todas angustias talvez seja: afinal, porque a vida vale a pena ser vivida? Para essa pergunta só há resposta definitiva se você acredita num ser supremo que te traçou um plano. Se este não é o caso, desencantamos o mundo e, portanto, racionalizamo-lo. Como conseqüência, ficamos presos em nossas rijas crostas de ferro. Contudo, vale lembrar que somos nós os donos das chaves que abrem nossas próprias jaulas. O problema é que temos muitas chaves e às vezes demora uma vida inteira para se encontrar aquela(s) que funciona(m).


P.s. Só para esclarecer: nada em mim é original. Eu sou o esforço combinado de todas as pessoas que já conheci.