À deriva


Ela também sofre com as coisas da vida há algum tempo - talvez sempre tenha sofrido, mas só se deu conta disso há algum tempo. Pode chamar de crise de sentido, identidade, perspectivas ou weltanschauung. O fato é que, na maior parte do tempo, ela se sente à deriva em meio à liquidez do mundo contemporâneo. Ela não é uma outsider, tampouco uma flâneur (gostaria de ser, mas não é. Mesmo que às vezes finja ser). Na verdade, ela tem todas condições para jogar o jogo deles. Afinal, ela sabe nadar, mas se recusa a fazê-lo. Por isso, acha que não deveria reclamar. Também porque pensa soar infantil sentir-se assim. Contudo, fazer escolhas de vida a angustia diariamente. E o mais difícil, e cansativo, é tentar manter a coerência expressiva. Às vezes ela falha, os disfarces caem, e todos parecem perceber o quão confusa e insatisfeita ela está. Enquanto isso, os cães de guarda continuam gritando silenciosamente: escolha a vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma televisão de alta definição...

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Patti maionese


Jesus died for somebody's sins but not mine
Meltin' in a pot of thieves
Wild card up my sleeve
Thick heart of stone
My sins my own
They belong to me, me

A caneta pode ser uma espada poderosa

Não há palavra melhor do que a palavra certa. É preciso escolher com cuidado aquela que indique exatamente o que se quer expressar. Contudo, às vezes, muito mais se diz sem se dizer nada. Afinal, há coisas que são inefáveis.

Como bem alertam certos filósofos da linguagem: palavras também são atos. Neste sentido, o significado das palavras só pode ser entendido pelo uso que se faz delas o que envolve tanto o conteúdo semântico, quanto a performance, mas também os efeitos que determinado enunciado produz no seu interlocutor. Contudo, a ausência de palavras também é um ato.

Os contextualistas linguísticos diriam ainda que a questão principal a ser feita diante de um ato de fala é: qual a intenção de determinado indivíduo ao proferir tais palavras em tais contextos? No caso da ausência de palavras, a intenção estaria em não proferir.

Ao mesmo tempo, o significado das palavras – e da ausência delas – não deve ser superestimado: às vezes, são apenas o que aparentam ser e não há nenhum significado além.

We'll always have Paris


"D'ailleurs, c'est toujours les autres qui meurent."

25 de Fevereiro


Hoje não lembro de Tennessee Williams, nem de Mário de Andrade, mas sim de Caio Fernando Abreu. Este 25 de Fevereiro também me lembrará Jean Mafra. Uma feliz coincidência, já que, para mim, ele sempre teve algo de Caio F.
(mas isto é assunto para outra ocasião, afinal, ainda estou de férias...).

Férias


Estou em Côte d'Azur. Vim visitar Caroline e Stéphanie. Passamos o dia à beira mar enquanto Marthe nos prepara petiscos e Louis mantém nossos copos cheios de alegria borbulhante. Bom papo, música agradável e leituras interessantes preenchem nossos dias. À noite, Gabrielle abre seu guarda roupas para nos emprestar algo. Devidamente vestidas, seguimos rumo à alguma festa interminável e orgiástica. Pura esbórnia. Quando acordo, percebo que era apenas um truque de Morfeu. Mesmo assim, ainda são férias. É suficiente. Certos pequenos deleites burgueses não são mesmo pra mim. Viro pro lado e volto a dormir – às vezes, até, muito bem acompanhada.

Sobre aquilo que é pós-escrito

Sim, escrevo-te tudo o que eu queria dizer e mesmo assim sempre há um maldito PS. Às vezes ele está lá, escancarado no final do texto, como deveria ser. Afinal, essa é a abreviatura de post-scriptum – e até aí nenhuma novidade. O que você não sabe é que certas vezes dou um jeito de inseri-los no meio do texto: ora em alguma frase reescrita, noutras infiltrado entre hífens e parênteses – ou, até mesmo, nas entrelinhas. Na verdade, acho que você sempre sabe aonde eles estão. Sabe também que não são mera estratégia retórica (eu não preciso disto, preciso?) ou um simples “ah,antesqueeumeesqueça” (eles tem um significado maior que simples lapsos de memória, não?). Além disso, meu caro, eles não servem para sugerir que sempre há algo a mais a ser dito, para isso existem as reticências. Ainda assim, podem ser prepotentes, pois talvez sirvam para indicar que há algo mais naquilo que aparentemente está sendo dito, entende?

PS: isto não é uma provocação.
PPS: isto sim é uma provocação.

Da frieza alheia



- Palavras foram inventadas para descrever mulheres como você.

- Como, por exemplo?

- Impiedosa... E... Inacessível.

- Você me acha fria então, é isso?

- Não, de maneira alguma. Na verdade, eu te acho formidável.

(...)

- Sabe, eu não consigo decidir se você me odeia ou se você é a primeira pessoa que realmente me entendeu.

- Eu não te odeio.

Moustache e afins

Pode ser um suntuoso bigode, uma barba soberba ou mesmo um cavanhaque bem desenhado. Tenho certeza que um deles deve ficar bem em você. Contudo, alerto: possuir pêlos adornando o rosto pode ser apropriado para a pose, meu caro, mas não é isto que faz de ti um intelectual.