Relato de um sonho absurdo

Ontem sonhei com Albert Camus. Era noite e estávamos em uma cafeteria, onde conversávamos enquanto bebíamos café. Lembro que, em meio a tantas coisas que poderiam ter me intrigado nesta situação, chamou-me bastante atenção a forma como estávamos vestidos. Ele trajava um fraque: sobrecasaca de cor preta, camisa branca, colete cinza-escuro, calça da mesma cor com riscas verticais mais escuras, sapatos pretos. Ele não estava usando gravata, contudo seu chapéu encontrava-se pendurado no cabideiro ao lado da porta – acredito que era dele já que não havia ninguém além de nós dois no local. Sentada à sua frente, eu usava somente um vestido de veludo azul petróleo de caimento perfeito. Estava descalça e sem maquiagem alguma, mas mesmo assim apresentava surpreendente elegância.
A maneira como levávamos as pequenas xícaras de porcelana branca à boca também indicava certo refinamento, assim como a delicadeza que empenhávamos ao fumar os eventuais cigarros – que eram acesos cada vez com mais frequência, conforme se desenrolava a conversa. Apesar dessas aparentes formalidades parecíamos estar muito à vontade um com o outro. O tom da conversa sugeria isso. Fofocamos a respeito de Sífifo, Marie, Janine e daquele homem revoltado. Zombamos de Sartre. Também falamos sobre futebol e sobre escolher viajar de trem ou de carro.
Em certo momento, a porta da cafeteria em que estávamos foi abruptamente aberta. Era David Lynch. Ele não se desculpou pela interrupção, simplesmente veio em direção à nossa mesa, voltou-se para Camus e disse: Eu não acho que as pessoas aceitam o fato de que a vida não faz sentido algum. Só pensar isso as deixa terrivelmente incomodadas. Camus respondeu que sim – apesar de Lynch não ter lhe perguntado nada – e me olhou sorrindo, como se esperasse que eu concordasse com ele. Fingi entender o que ele estava querendo dizer e ambos pareceram satisfeitos com isso. Eu também fiquei satisfeita.

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