Pode ser um suntuoso bigode, uma barba soberba ou mesmo um cavanhaque bem desenhado. Tenho certeza que um deles deve ficar bem em você. Contudo, alerto: possuir pêlos adornando o rosto pode ser apropriado para a pose, meu caro, mas não é isto que faz de ti um intelectual.
Moustache e afins
Pode ser um suntuoso bigode, uma barba soberba ou mesmo um cavanhaque bem desenhado. Tenho certeza que um deles deve ficar bem em você. Contudo, alerto: possuir pêlos adornando o rosto pode ser apropriado para a pose, meu caro, mas não é isto que faz de ti um intelectual.
Just kids
Festividades de final de ano
Da classificação
Alteridade
Esbarramo-nos numa destas noites aleatórias. Ele adora dissertar prolixamente sobre a natureza humana quando está embriagado. Curiosamente, desta vez parecia interessado em ouvir o que eu pensava a respeito. Perguntou-me sobre o que nos une, o que nos faz viver em sociedade.
Eu poderia falar-lhe do contrato, da solidariedade, da propriedade, da héxis ou do habitus. Poderia tê-lo ignorado também. Contudo, achei que poderia fazer uso da oportunidade para lhe dar uma alfinetada – uma de minhas especialidades. Então, respondi:
- Todos nós somos socialmente incompetentes em alguma medida. Para disfarçar – ou seja, para ao menos parecer competentes –, aprendemos os códigos socialmente instituídos. É preciso domínio das regras para acompanhar o jogo. Afinal, alienar-se nem sempre é uma opção: a misantropia muito raramente pode ser assumida, querido.
Chamou-me de apática ou resignada, não me lembro bem. No entanto, partilhamos uma coca-cola gelada. Nestes momentos, até os mais cínicos atestam que fomos feitos um para o outro: não há outra possibilidade.
Vazio
Mais uma dose
- Por que te preocupas tanto? Relaxe e beba uma dose de whisky.
Disse isso sussurando no meu ouvido. Na verdade, talvez não tenha dito nada, mas foi isso que escutei. Afinal, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só pedi que deixasse alguma luz acesa. A escuridão absoluta me tem feito chorar – e eu não consigo lamber minhas próprias lágrimas.
Olhou-me carinhosamente (ou talvez com desprezo, pouco importa) e me serviu mais uma dose.
Terça, com blues
Sim, hoje é terça novamente. Contudo, esta terça não é a primeira sexta da semana. Pelo menos não nesta semana. A primeira sexta foi segunda e a segunda sexta será quarta, ou quem sabe quinta – é impossível prever com exatidão este tipo de coisa. Só sei que, certamente, sexta será a terceira sexta da semana. Mas o que importa é que hoje é terça e esta terça novamente é de Caio. É dele porque pensei em blues, então lembrei de Ana. Sem Ana, Blues. (A isso chamam blues, diria o garoto.) Gosto de Caio – e esse é apenas um dos motivos pelos quais gosto dele – pela naturalidade com a qual ele é cruel. Ele não precisa de requintes. Eu também queria não precisar deles.


