Sim, hoje é terça novamente. Contudo, esta terça não é a primeira sexta da semana. Pelo menos não nesta semana. A primeira sexta foi segunda e a segunda sexta será quarta, ou quem sabe quinta – é impossível prever com exatidão este tipo de coisa. Só sei que, certamente, sexta será a terceira sexta da semana. Mas o que importa é que hoje é terça e esta terça novamente é de Caio. É dele porque pensei em blues, então lembrei de Ana. Sem Ana, Blues. (A isso chamam blues, diria o garoto.) Gosto de Caio – e esse é apenas um dos motivos pelos quais gosto dele – pela naturalidade com a qual ele é cruel. Ele não precisa de requintes. Eu também queria não precisar deles.
Incursões clínicas
Uma mulher
Saudades
Quando ele me deixou, os primeiros raios de sol daquela manhã de inverno entravam pela janela. Fazia frio, mas eu não sentia nada. Eu já estava perdida, porém só comecei a me dar verdadeiramente conta disso quando ele me deixou.
Antes de ele me deixar, eu tinha com quem ver o mundo e sócio-satirizá-lo. Ser cruel sozinha ou sem ser compreendida não tem graça. E isso eu já sabia mesmo antes de ele me deixar.
Desde que ele me deixou, não durmo uma boa noite de sono. Eu nunca tinha tido insônia e agora ela me assola todas as noites. É como se sua simples companhia ao meu lado na cama, que parecia tão banal, tenha se tornado algo indispensável desde que ele me deixou.
Depois que ele me deixou, o jazz parou de tocar e não sentimos mais o gosto do risoto. Não estamos tristes, mas nossas vidas parecem estar sem sentido. Já não sabemos o que fazer, nem para onde ir. Tudo mudou depois que ele me deixou.
O nascimento do leitor
Um texto pode ser uma peça discursiva que tem o intuito de comunicar algo ao outro. Contudo, um texto também pode ser um mero amontoado de palavras aparentemente sem sentido. Quem dá significado ao texto é tanto quem o escreve, quanto quem o lê? Afinal, o autor não está morto, mas tampouco o está o leitor. (Roland Barthes, esse sim já está morto.)
Assim como Enrique, ela queria escrever como Miles Davis, que em todas as suas apresentações tocava o trompete de costas para o público. O que eles não percebiam – ou fingiam não perceber – é que, na verdade, era o mundo que dava as costas para eles. Ingênuos.

