Terça, com blues

Sim, hoje é terça novamente. Contudo, esta terça não é a primeira sexta da semana. Pelo menos não nesta semana. A primeira sexta foi segunda e a segunda sexta será quarta, ou quem sabe quinta – é impossível prever com exatidão este tipo de coisa. Só sei que, certamente, sexta será a terceira sexta da semana. Mas o que importa é que hoje é terça e esta terça novamente é de Caio. É dele porque pensei em blues, então lembrei de Ana. Sem Ana, Blues. (A isso chamam blues, diria o garoto.) Gosto de Caio – e esse é apenas um dos motivos pelos quais gosto dele – pela naturalidade com a qual ele é cruel. Ele não precisa de requintes. Eu também queria não precisar deles.

Lynch-me



"Jane, I'm only dancing.
She turns me on, but I'm only dancing."

Incursões clínicas

Quando perguntei ao Dr. Breuer o que ele pensava a respeito do especialista que haviam me recomendado, ele já me alertara – e com um sorriso irônico sutil no rosto – que ele era uma pessoa bastante acelerada. Apesar de Josef me entender, surpreendentemente, bem, o que ele não sabe é que eu também sei ser bastante apressada (leia-se: 180 palavras por minuto). Especialmente, quando se trata de compartilhar as ditas crueldades. Este não era o caso, mas imaginei que se eu fosse mais veloz que ele talvez ele desacelerasse um pouco. Ou, ao menos, pareceria mais lento - questão de perspectiva, meu caro. Assim o fiz. Pensava ter sido bem sucedida em minha empreitada e acreditava conhecer todos os lugares-comuns que aquele tipo de pessoa poderia alcançar... Eu estava errada. Há algo mais irritante que um médico poderia fazer do que explicar uma patologia em termos maniqueístas os mais simplórios possíveis?! Má sou eu, doutor. Trate-me como leiga, não como idiota, por favor.

Uma mulher

Há um homem. Ele me odeia. Ele me ama, me amava. Eu também o amo, amo desde que nos conhecemos em Piauí. Ele tem nome húngaro, chama-se Péter Esterházy. Me conta de uma mulher, de várias mulheres - ou, talvez, sequer exista uma mulher: eu o odeio.

"Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio. Não existe outra possibilidade."

"Há uma mulher. Ela me ama. Eu pergunto se ela me ama. Por que me amaria? Porque foi o que combinamos. Que eu te amaria? Isso? Isso. Hoje? Hoje também, é claro, sempre, às onze e meia, em janeiro, na virada do milênio, sempre... há dia de folga? Está bem... Em que dia você pensou?Talvez... talvez na quarta. Por que na quarta? Porque hoje é quinta-feira. Muito gentil."

Saudades

Quando ele me deixou, os primeiros raios de sol daquela manhã de inverno entravam pela janela. Fazia frio, mas eu não sentia nada. Eu já estava perdida, porém só comecei a me dar verdadeiramente conta disso quando ele me deixou.

Antes de ele me deixar, eu tinha com quem ver o mundo e sócio-satirizá-lo. Ser cruel sozinha ou sem ser compreendida não tem graça. E isso eu já sabia mesmo antes de ele me deixar.

Desde que ele me deixou, não durmo uma boa noite de sono. Eu nunca tinha tido insônia e agora ela me assola todas as noites. É como se sua simples companhia ao meu lado na cama, que parecia tão banal, tenha se tornado algo indispensável desde que ele me deixou.

Depois que ele me deixou, o jazz parou de tocar e não sentimos mais o gosto do risoto. Não estamos tristes, mas nossas vidas parecem estar sem sentido. Já não sabemos o que fazer, nem para onde ir. Tudo mudou depois que ele me deixou.

O nascimento do leitor

Um texto pode ser uma peça discursiva que tem o intuito de comunicar algo ao outro. Contudo, um texto também pode ser um mero amontoado de palavras aparentemente sem sentido. Quem dá significado ao texto é tanto quem o escreve, quanto quem o lê? Afinal, o autor não está morto, mas tampouco o está o leitor. (Roland Barthes, esse sim já está morto.)

Assim como Enrique, ela queria escrever como Miles Davis, que em todas as suas apresentações tocava o trompete de costas para o público. O que eles não percebiam – ou fingiam não perceber – é que, na verdade, era o mundo que dava as costas para eles. Ingênuos.

Mediocridade

Achava-se talhado para grandes feitos. Assim como a maior parte das pessoas, era medíocre e sempre seria. Jamais realizaria algo extraordinário, mas insistia em pensar o contrário. Julgava ser boa pessoa, contudo, permitia-se pequenos deslizes morais que não considerava falhas de caráter. Não se destacava em nada. Nunca chegou em primeiro lugar, sequer tinha habilidade alguma. Não era completamente burro, mas sua inteligência era tão mediana e comum que me provocava ânsias. Patético, pensava que suas frases e conselhos repletos de lugares comuns eram brilhantes. Era ridículo, eu o desprezava profundamente. E ele sentia por mim estas mesmas coisas que eu sentia por ele. (Nos amávamos loucamente).