Da classificação

- Você está chateada porque ficou em quarto lugar?

- De maneira nenhuma. Na verdade, confesso-te: esta sempre foi minha posição favorita...




P.s.: um beijo para o meu "amigo" Iggy Pop (lá na década de 70, porque hoje estás muito acabadinho).

Alteridade

Esbarramo-nos numa destas noites aleatórias. Ele adora dissertar prolixamente sobre a natureza humana quando está embriagado. Curiosamente, desta vez parecia interessado em ouvir o que eu pensava a respeito. Perguntou-me sobre o que nos une, o que nos faz viver em sociedade.

Eu poderia falar-lhe do contrato, da solidariedade, da propriedade, da héxis ou do habitus. Poderia tê-lo ignorado também. Contudo, achei que poderia fazer uso da oportunidade para lhe dar uma alfinetada – uma de minhas especialidades. Então, respondi:

- Todos nós somos socialmente incompetentes em alguma medida. Para disfarçar – ou seja, para ao menos parecer competentes –, aprendemos os códigos socialmente instituídos. É preciso domínio das regras para acompanhar o jogo. Afinal, alienar-se nem sempre é uma opção: a misantropia muito raramente pode ser assumida, querido.

Chamou-me de apática ou resignada, não me lembro bem. No entanto, partilhamos uma coca-cola gelada. Nestes momentos, até os mais cínicos atestam que fomos feitos um para o outro: não há outra possibilidade.

Vazio

Já não escuto mais nossas vozes secas, silenciosas e sem sentido, sussurrando juntas. Quietas como ratos que caminham sobre cacos de vidro em nosso antigo celeiro.
Após a seca, veio a enchente. Sem pretensões, cultivamos um jardim - utopista. Surgiram flores: deu par.
Quando anunciaste que vinhas, há muito já te esperava. Mas passou a primavera, com sua terna brisa pelos ares e calaram-se os cantares.
Ao ficar só, eu quis muito muito ter você aqui. Mesmo sem me oferecer sequer um café, pois não pedi mais que o seu silêncio.
Depois, quis te encontrar e ser tua paz. Precisei, mas sem exigir. E tudo o que eu tinha, também era teu.
Quando me fechei, você soube me abrir: pétala por pétala. Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.
Descobri que um beijo é só um beijo, mas as coisas que são fundamentais sempre vem à tona conforme o tempo passa.
Sem usar quase disfarce algum, abracei minha loucura antes que fosse tarde demais. Descobri que o inesperado também me agrada.
Ainda assim, hoje acordei e me perguntei: meu amor, cadê você? Não tinha ninguém ao lado.

Mais uma dose

- Por que te preocupas tanto? Relaxe e beba uma dose de whisky.

Disse isso sussurando no meu ouvido. Na verdade, talvez não tenha dito nada, mas foi isso que escutei. Afinal, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só pedi que deixasse alguma luz acesa. A escuridão absoluta me tem feito chorar – e eu não consigo lamber minhas próprias lágrimas.

Olhou-me carinhosamente (ou talvez com desprezo, pouco importa) e me serviu mais uma dose.

Terça, com blues

Sim, hoje é terça novamente. Contudo, esta terça não é a primeira sexta da semana. Pelo menos não nesta semana. A primeira sexta foi segunda e a segunda sexta será quarta, ou quem sabe quinta – é impossível prever com exatidão este tipo de coisa. Só sei que, certamente, sexta será a terceira sexta da semana. Mas o que importa é que hoje é terça e esta terça novamente é de Caio. É dele porque pensei em blues, então lembrei de Ana. Sem Ana, Blues. (A isso chamam blues, diria o garoto.) Gosto de Caio – e esse é apenas um dos motivos pelos quais gosto dele – pela naturalidade com a qual ele é cruel. Ele não precisa de requintes. Eu também queria não precisar deles.

Lynch-me



"Jane, I'm only dancing.
She turns me on, but I'm only dancing."

Incursões clínicas

Quando perguntei ao Dr. Breuer o que ele pensava a respeito do especialista que haviam me recomendado, ele já me alertara – e com um sorriso irônico sutil no rosto – que ele era uma pessoa bastante acelerada. Apesar de Josef me entender, surpreendentemente, bem, o que ele não sabe é que eu também sei ser bastante apressada (leia-se: 180 palavras por minuto). Especialmente, quando se trata de compartilhar as ditas crueldades. Este não era o caso, mas imaginei que se eu fosse mais veloz que ele talvez ele desacelerasse um pouco. Ou, ao menos, pareceria mais lento - questão de perspectiva, meu caro. Assim o fiz. Pensava ter sido bem sucedida em minha empreitada e acreditava conhecer todos os lugares-comuns que aquele tipo de pessoa poderia alcançar... Eu estava errada. Há algo mais irritante que um médico poderia fazer do que explicar uma patologia em termos maniqueístas os mais simplórios possíveis?! Má sou eu, doutor. Trate-me como leiga, não como idiota, por favor.

Uma mulher

Há um homem. Ele me odeia. Ele me ama, me amava. Eu também o amo, amo desde que nos conhecemos em Piauí. Ele tem nome húngaro, chama-se Péter Esterházy. Me conta de uma mulher, de várias mulheres - ou, talvez, sequer exista uma mulher: eu o odeio.

"Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio. Não existe outra possibilidade."

"Há uma mulher. Ela me ama. Eu pergunto se ela me ama. Por que me amaria? Porque foi o que combinamos. Que eu te amaria? Isso? Isso. Hoje? Hoje também, é claro, sempre, às onze e meia, em janeiro, na virada do milênio, sempre... há dia de folga? Está bem... Em que dia você pensou?Talvez... talvez na quarta. Por que na quarta? Porque hoje é quinta-feira. Muito gentil."

Saudades

Quando ele me deixou, os primeiros raios de sol daquela manhã de inverno entravam pela janela. Fazia frio, mas eu não sentia nada. Eu já estava perdida, porém só comecei a me dar verdadeiramente conta disso quando ele me deixou.

Antes de ele me deixar, eu tinha com quem ver o mundo e sócio-satirizá-lo. Ser cruel sozinha ou sem ser compreendida não tem graça. E isso eu já sabia mesmo antes de ele me deixar.

Desde que ele me deixou, não durmo uma boa noite de sono. Eu nunca tinha tido insônia e agora ela me assola todas as noites. É como se sua simples companhia ao meu lado na cama, que parecia tão banal, tenha se tornado algo indispensável desde que ele me deixou.

Depois que ele me deixou, o jazz parou de tocar e não sentimos mais o gosto do risoto. Não estamos tristes, mas nossas vidas parecem estar sem sentido. Já não sabemos o que fazer, nem para onde ir. Tudo mudou depois que ele me deixou.