Sim, estamos condenados a ser livres. Sei que condenação parece uma palavra pesada, demasiadamente pesada (não gostou? Queixe-se com JP). Mas é simples, querido: estamos compelidos a fazer escolhas. Por que te angustias tanto? Não escolher já é fazer uma escolha. E te confidencio: ninguém é totalmente lúcido. Alguns só encenam melhor – crêem no papel que estão representando e o tornam significativo para os outros. Não, isso não é falsidade. É habilidade. Acentuam-se uns fatos e ocultam-se outros. É preciso ao menos tentar manter a coerência expressiva, entende?
(Há realmente muitas precauções para aprisionar uma pessoa naquilo que ela é, como se vivêssemos com o perpétuo receio de que possa escapar do que é, possa fugir e de repente ver-se livre da própria condição.)
A sutileza do ódio
À bela e tirana Austera:
Toda forma de ódio é mais sutil do que se imagina.
Talvez a autoria dos erros mais estúpidos nos revela: se eu pudesse parar de escrever, eu o faria... (Se eu pudesse ser menos tolo, também o seria.)
Grata e fértil possibilidade de se exaurir de culpa quando se falseia como louco.
Grata e fértil possibilidade de se exaurir de angústia quando se falseiam palavras na folha de papel.
A madrugada não me revelou coisa alguma, o jazz não me encantou em nada e o vinho sequer brilhou meus olhos.
Malditas lembranças que gostam de se encontrar com seus palpites. Elas os esgarçam até dizerem algo. Até dizerem que nada dizem. Ou dizerem que nada querem, mas apenas dizem - que, como eu, são sem sentido.
Não vejo mais seus filmes. E quando os meus me lembrarem os seus... mal dia para a ciência ou qualquer outra dessas crenças.
Mal dia em que a maldita lembrança notou um ódio sutil de alguma coisa.
Eu poderia falar tudo isso em um acorde, diferente daqueles que um dia fiz pra você.
Mas para não te despertar, apenas fecho meus olhos para parar de escrever.
Jóris.
Toda forma de ódio é mais sutil do que se imagina.
Talvez a autoria dos erros mais estúpidos nos revela: se eu pudesse parar de escrever, eu o faria... (Se eu pudesse ser menos tolo, também o seria.)
Grata e fértil possibilidade de se exaurir de culpa quando se falseia como louco.
Grata e fértil possibilidade de se exaurir de angústia quando se falseiam palavras na folha de papel.
A madrugada não me revelou coisa alguma, o jazz não me encantou em nada e o vinho sequer brilhou meus olhos.
Malditas lembranças que gostam de se encontrar com seus palpites. Elas os esgarçam até dizerem algo. Até dizerem que nada dizem. Ou dizerem que nada querem, mas apenas dizem - que, como eu, são sem sentido.
Não vejo mais seus filmes. E quando os meus me lembrarem os seus... mal dia para a ciência ou qualquer outra dessas crenças.
Mal dia em que a maldita lembrança notou um ódio sutil de alguma coisa.
Eu poderia falar tudo isso em um acorde, diferente daqueles que um dia fiz pra você.
Mas para não te despertar, apenas fecho meus olhos para parar de escrever.
Jóris.
Caio, meu amor
Certa vez me disseram que a semana não começa na terça.
Alguém também já me disse (sussurando no pé do ouvido) que terça é a primeira sexta da semana.
Seja como for, a questão é que hoje Jane está sem vontade de escrever. Ela não tem prazos a cumprir, nem deve nada a ninguém. Por isso, ela escreve somente quando a vontade é incontrolável.
Jane também não precisa se justificar pra você, mas ela faz questão de dizer que gosta muito de Caio - ele sempre a faz companhia nas noites mais solitárias.
Ela também quer dizer que detesta pessoas que se referem a elas mesmas na terceira pessoa (só estou fazendo isso pra te irritar). Mas em outra oportunidade falaremos sobre isso. Hoje não. Esta terça é de Caio, meu amor:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.
Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.
(Caio Fernando Abreu; trecho de "Triângulo das Águas", 1984)
Alguém também já me disse (sussurando no pé do ouvido) que terça é a primeira sexta da semana.
Seja como for, a questão é que hoje Jane está sem vontade de escrever. Ela não tem prazos a cumprir, nem deve nada a ninguém. Por isso, ela escreve somente quando a vontade é incontrolável.
Jane também não precisa se justificar pra você, mas ela faz questão de dizer que gosta muito de Caio - ele sempre a faz companhia nas noites mais solitárias.
Ela também quer dizer que detesta pessoas que se referem a elas mesmas na terceira pessoa (só estou fazendo isso pra te irritar). Mas em outra oportunidade falaremos sobre isso. Hoje não. Esta terça é de Caio, meu amor:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.
Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.
(Caio Fernando Abreu; trecho de "Triângulo das Águas", 1984)
Sobre clichês
De finais de filmes a campanhas eleitorais. De opiniões sobre temas banais a declarações amorosas. Eles estão lá, estão por toda parte.
A pergunta que não quer calar: por que é tão difícil escapar de lugares-comuns?
Os chavões se alastram pelos quatro cantos do mundo e ninguém parece se importar muito com isso. Consterna-me profundamente o fato das pessoas parecerem não se irritar com eles – e, pior, até gostam deles.
Sei que em algumas situações eles parecem ter importância vital e você acha que eles expressam exatamente o que você queria dizer. Pode até ser que de quando em quando não possamos escapar do uso de clichês. Mas não seja uma vítima fatal deles, você pode evitá-los, eu sei que pode.
Basta usar essa coisa que fica em cima do seu pescoço e que não serve simplesmente para colocar chapéus. Pense um pouquinho, você consegue. A língua é uma fonte inesgotável de expressões idiomáticas.
Há uma luz no fim do túnel e ela me diz que deve haver algum vestígio de criatividade e originalidade em você – aliás, em todos nós.
P.S.: quem acertar quantos clichês usei neste post vai ganhar um caloroso abraço.
A pergunta que não quer calar: por que é tão difícil escapar de lugares-comuns?
Os chavões se alastram pelos quatro cantos do mundo e ninguém parece se importar muito com isso. Consterna-me profundamente o fato das pessoas parecerem não se irritar com eles – e, pior, até gostam deles.
Sei que em algumas situações eles parecem ter importância vital e você acha que eles expressam exatamente o que você queria dizer. Pode até ser que de quando em quando não possamos escapar do uso de clichês. Mas não seja uma vítima fatal deles, você pode evitá-los, eu sei que pode.
Basta usar essa coisa que fica em cima do seu pescoço e que não serve simplesmente para colocar chapéus. Pense um pouquinho, você consegue. A língua é uma fonte inesgotável de expressões idiomáticas.
Há uma luz no fim do túnel e ela me diz que deve haver algum vestígio de criatividade e originalidade em você – aliás, em todos nós.
P.S.: quem acertar quantos clichês usei neste post vai ganhar um caloroso abraço.
um apud
titio Erving usou como epígrafe - e eu gosto.
As máscaras são expressões controladas e ecos
admiráveis do sentimento, ao mesmo tempo fiéis,
discretas e supremas. As coisas vivas em
contato com o ar devem adquirir uma cutícula,
e não se pode argumentar que as cutículas não
são corações; contudo alguns filósofos parecem
aborrecidos com as imagens por não serem
objetos e com as palavras por não serem
sentimentos. Palavras e imagens são como as
conchas, não menos partes integrantes da
natureza do que as substâncias que cobrem,
porém melhor dirigidas ao olhar e mais abertas
à observação. Não diria que a substância existe
por causa da aparência, ou o rosto por causa
da máscara, ou as paixões por causa da
poesia e da virtude. Coisa alguma surge na
natureza devido a qualquer outra coisa; todas
essas faces e produtos estão igualmente
envolvidas no ciclo da existência ...
(George Santayana; "Soliloquies in England and Later Soliloquies", 1922)
Como diria Dr. Gregório: everybody lies.
As máscaras são expressões controladas e ecos
admiráveis do sentimento, ao mesmo tempo fiéis,
discretas e supremas. As coisas vivas em
contato com o ar devem adquirir uma cutícula,
e não se pode argumentar que as cutículas não
são corações; contudo alguns filósofos parecem
aborrecidos com as imagens por não serem
objetos e com as palavras por não serem
sentimentos. Palavras e imagens são como as
conchas, não menos partes integrantes da
natureza do que as substâncias que cobrem,
porém melhor dirigidas ao olhar e mais abertas
à observação. Não diria que a substância existe
por causa da aparência, ou o rosto por causa
da máscara, ou as paixões por causa da
poesia e da virtude. Coisa alguma surge na
natureza devido a qualquer outra coisa; todas
essas faces e produtos estão igualmente
envolvidas no ciclo da existência ...
(George Santayana; "Soliloquies in England and Later Soliloquies", 1922)
Como diria Dr. Gregório: everybody lies.
Sshhh!
Já notou que tem gente que parece falar com o caps lock ligado? Digam o que disserem – mas em voz baixa, por favor –, eu nunca deixei de acreditar que falar alto esconde algum problema. De surdez à falsa auto-afirmação. Não raro, quem fala alto, pouco faz ou está errado. Geralmente, não ouve. E há quem repita, como se reenviar fizesse com que eu não deletasse de novo a inútil mensagem.
Mas - como o mundo é injusto - em um grupo de mudos, quem fala alto vira líder. Peguemos uma reunião, por exemplo. Quem tem uma excelente ideia e fica quieto, não resolve. Assim, quem se manifesta, independentemente do conteúdo da proposta, pode vê-la aceita. Frequentemente, não pela ideia em si, mas por ter sido o único que falou.
Isso me lembra outro fraco dessa relação: os que mal abrem a boca. E, quando o fazem, têm sua voz esganiçada ou artificializada. Ou, ainda pior, ignorada – já que ninguém está acostumado a ouvi-la... É como se o ouvido fosse um windows pirata que não reconhece a configuração daquela fala.
Se existe uma regulação do equilíbrio entre falar e ouvir, não sei. É questão de bom senso. Comece adequando-se à velha ABNT (olha o caps lock aí!!): arial ou times new roman, tamanho 12.
Mas - como o mundo é injusto - em um grupo de mudos, quem fala alto vira líder. Peguemos uma reunião, por exemplo. Quem tem uma excelente ideia e fica quieto, não resolve. Assim, quem se manifesta, independentemente do conteúdo da proposta, pode vê-la aceita. Frequentemente, não pela ideia em si, mas por ter sido o único que falou.
Isso me lembra outro fraco dessa relação: os que mal abrem a boca. E, quando o fazem, têm sua voz esganiçada ou artificializada. Ou, ainda pior, ignorada – já que ninguém está acostumado a ouvi-la... É como se o ouvido fosse um windows pirata que não reconhece a configuração daquela fala.
Se existe uma regulação do equilíbrio entre falar e ouvir, não sei. É questão de bom senso. Comece adequando-se à velha ABNT (olha o caps lock aí!!): arial ou times new roman, tamanho 12.
Para a estreia, brioches
Começo dizendo que detesto o novo acordo ortográfico. Não porque escrever estreia sem acento me pareça dramático, mas simplesmente porque certas coisas deveriam ser deixadas como são - no caso, como eram. Além disso, penso que os linguístas deveriam achar coisas mais interessantes das quais se ocupar.
Dito isso, tratemos agora dos brioches. Afinal, o que são brioches? Se você começou a ler isso pensando que eu responderia à essa sua inquietação existencial, esqueça. Pare de ler aqui mesmo (se é que você já aguentou ler até aqui).
Pouco me importa o que são os tais brioches.
Obviamente devem ser um tipo de pão - parece que eles estão à venda em padarias. Mas, exceto em receitas (e não me refiro somente àquelas que chefs ingleses com cortes de cabelo descolados inventam), ninguém quer ler algo que contenha as palavras farinha, sal e ingredientes em geral.
Não que eu me interesse sobre o que vocês querem ler, mas o que quero lhes falar é outra coisa: sobre o que me incomoda em relação aos brioches.
Em primeiro lugar, a maioria das pessoas (leia-se: todas as que conheço) nunca comeu um brioche. Contudo, adoram fazer referência ao que Maria Antonieta disse. Ou melhor, ao que dizem que ela disse - não confio muito nos historiadores.
Outra coisa que me perturba é o fato dos brioches serem franceses. Das baguetes e dos croissants eu gosto. Mas esses eu já vi, já comi, já digeri. E eles não soam tão aristocráticos quanto os brioches.
Mas não é só isso que os fazem ser irritantes, e sim a forma como algumas pessoas pronunciam a palavra brioche. Isso sim me irrita - até mais que os próprios brioches. Eis aí uma questão da qual os linguístas deveriam se ocupar.
Dito isso, tratemos agora dos brioches. Afinal, o que são brioches? Se você começou a ler isso pensando que eu responderia à essa sua inquietação existencial, esqueça. Pare de ler aqui mesmo (se é que você já aguentou ler até aqui).
Pouco me importa o que são os tais brioches.
Obviamente devem ser um tipo de pão - parece que eles estão à venda em padarias. Mas, exceto em receitas (e não me refiro somente àquelas que chefs ingleses com cortes de cabelo descolados inventam), ninguém quer ler algo que contenha as palavras farinha, sal e ingredientes em geral.
Não que eu me interesse sobre o que vocês querem ler, mas o que quero lhes falar é outra coisa: sobre o que me incomoda em relação aos brioches.
Em primeiro lugar, a maioria das pessoas (leia-se: todas as que conheço) nunca comeu um brioche. Contudo, adoram fazer referência ao que Maria Antonieta disse. Ou melhor, ao que dizem que ela disse - não confio muito nos historiadores.
Outra coisa que me perturba é o fato dos brioches serem franceses. Das baguetes e dos croissants eu gosto. Mas esses eu já vi, já comi, já digeri. E eles não soam tão aristocráticos quanto os brioches.
Mas não é só isso que os fazem ser irritantes, e sim a forma como algumas pessoas pronunciam a palavra brioche. Isso sim me irrita - até mais que os próprios brioches. Eis aí uma questão da qual os linguístas deveriam se ocupar.
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